terça-feira, 8 de agosto de 2017

O Filme Da Minha Vida e o cinema independente nacional


Criou-se um folclore sobre o cinema nacional surgindo na época da pornochanchada - em que o cinema brasileiro era voltado a comédia e simultaneamente chegavam de hollywood as grandes produções munidas de tecnlogia como 007 - desde então é comum de se ouvir "cinema nacional não presta". Naquela época, o cinema nacional não tinha recursos para prestar, não existia investimento. Quase setenta anos depois, as coisas não mudaram muito por aqui, hoje existe investimento, só que ele é direcionado ao que será supostamente mais rentável e ficam nas mãos apenas de grandes produtoras, que detém a publicidade e a mídia do país, não existindo lugar para o cinema independente.

Se tem uma coisa que me deixa inconformada, é o quando as produções nacionais não são valorizadas aqui mas ganham grandes destaques nos festivais nacionais (um exemplo disso é Como Os Nossos Pais que foi aclamado no Festival Internacional de Cinema de Berlim e esquecido pela mídia brasileira), o mesmo vem acontecendo com O Filme da Minha Vida. O Filme Da Minha Vida é dirigido pelo o Selton Mello e estreou nos cinemas brasileiros com salas vazias, toda a publicidade do filme foi feita pelas redes sociais dos próprios atores com pouco incentivo. Não se ouviu falar sobre eles nos grandes sites de notícias ou de entretenimento.

O filme é uma obra de arte visual, sua fotografia parece milimetricamente pensada assim como sua colorimetria. Alternando entre os sonhos e a realidade, os frames conseguem capturar as sensações que se passam sobre os personagens, indo de um amarelo quente ao vermelho suave, todos os em tons de lembranças, chegando ao marrom e ao preto, aumentando a melancolia e a insegurança do personagem principal em uma cidade fria, pequena e isolada, onde ele é professor, situada na serra gaúcha. É como abrir uma caixa de fotografias antigas e tentar colorir as mesmas, destacando as emoções dos retratados. A trilha sonora é um capítulo à parte, não se fez tão simetricamente excelente como a fotografia mas conseguem fazer com que as imagens se destaquem e as sensações se potencialize, principalmente nas situações de ansiedade, trsiteza e saudades. O filme fala muito das emoções em si, nos sentimentos são baseados o roteiro e fazem despertar os personagens que tem suas histórias entrelaçadas.


Ele é tomado por reverência ao passado, desde a sua ambientação, até os figurinos típicos dos anos 1960, seja pela lembrança constante de uma felicidade que já não existe mais. Vem com ele os extremos oposto das personalidades dos personagens principais: a melancolia de um e a frieza rude de outro, que se uma alguma forma, se atraem. Adaptado do livro Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármeta (que inclusive, faz uma pequena participação no filme), o roteiro busca explorar os sentimentos de busca do protagonista através de abandono do pai quando criança e quando adulto e dos conflitos de um jovem, descobrindo o sexo, a amizade, a paixão. O filme apresenta em si deficiências no roteiro, há uma necessidade de dá um fim as histórias dos personagens secundários do filme e acaba levando ele pra desfechos desnecessários e até mesmo superficiais, mas o longa se mostra sensível em tons visuais e poético em si.

Como um filme bonito e com um roteiro adaptado munido de algumas deficiências, discutir se o filme é bom ou ruim não é o ponto principal aqui, mas expor o descaso do público brasileiro com suas produções atuais, seja por não querer ver pelo o mito que se criou em torno do cinema nacional ou seja por falta de conhecimento da existência. Não existiu a curiosidade de conhecer o filme, no seu fracasso de exibição, não existiu o despertar de ver uma produção nacional em que não exista um humor pronto do Porchat com cenas desconexas, não existiu a procurar por algo que vai muito além do que a maioria dos filmes financiados pela Globo Filmes oferece. Vai muito além do "ruim" ou "bom", "maravilhoso" ou "péssimo", a moral principal da história é que o cinema nacional precisa ser divulgado para aguçado. Dependemos da divulgação de uma grande produtora, detentora do principal veículo midíatico do país, que escolhe as produções e escolhe como divulga-lás.

Que o Filme Da Minha Vida seja visto, divulgado e compartilhado, maravilhoso ou péssimo - na concepção particular de cada um, é uma obra independente nossa e mostra que o cinema nacional pode respirar livre das amarras das grandes produtoras que enfiam qualquer tipo de filme em nossos cinemas. 

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