quarta-feira, 13 de junho de 2018

I've got new rules

Resultado de imagem para alabama monroe tumblr

Como boa neurótica que sou, tenho uma regra cinematográfica que levo muito a sério que é não me apaixonar um filme sem um intervalo de um mês. Eu preciso desse tempo para me recompor, falar exaustivamente para os meus amigos, postar no Instagram, no Facebook e no Twitter, ameaçar desfazer amizades com quem não assistir ou assistir e não amar tanto quanto eu além de refletir se devo favoritar ou não no filmow. Tudo isso leva tempo.

Essa semana vi A Caça, do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg. Um filme profundo e doloroso sobre os danos irreparáveis que a mentira e o julgamento precipitado podem causar. Era como se pudesse sentir a dor da injustiça dentro de mim. Fiquei dias falando sobre ele — até com desconhecidos na rua, eu puxava assunto.

Em seguida, veio Alabama Monroe. Por favor, uma pausa para Alabama. Esse é um filme que não dá para ir falando sem essa pausa. Sem um suspiro. Sem um olhar perdido no horizonte. O longa belga do diretor Felix Van Groeningen é um belíssimo conto de fadas rural de arrancar o coração com as mãos. Aquele tipo de filme em que os personagens saem do cinema com a gente, vão para casa, para o trabalho, para as festas, e se recusam a partir enquanto a gente não aceita e supera tudo que aconteceu com eles. Quando a gente aceita, eles vão.

Eu gosto de filmes que deixam conseqüências. Não gosto de sair do cinema do mesmo jeito que entrei. E nesse quesito, e em todos os outros, esses três citados estão de parabéns.

Alguns filmes são tão lindos que não terminam quando acabam.

Estou apaixonada pelos dois. Quebrei a regra. 

The Big Sick | Resenha



Sabe aqueles dias que você só quer um fast food cinematográfico? Uma comédia romântica, cheia clichês, que te faça acreditar minimamente no amor novamente com aquele final feliz impossível entre duas pessoas que se conheceram há uma semana de uma forma totalmente aleatória mas nunca tiveram um sentimento tão intenso e recíproco na vida, então, eu estava procurando isso quando assisti The Big Sick, pra complementar a receita clichê, amor e tudo que há de bom, ele ainda tinha sido indicado ao oscar de Melhor Roteiro Original para Kumail Nanjiani que além de ser o roteirista, atua no filme. 

A história se passa na vida de Kumail Nanjiani, o qual é um comediante de stand-up, Paquistanês, seus pais saíram do país em direção aos EUA na esperança de fugir da guerra. Apesar de pertencer a uma família extremamente tradicional, ele não concorda com muitos dos costumes da cultura paquistanesa, principalmente dos casamentos arranjados pela própria família, no qual ele mal conhece a noiva. A coisa se complica de vez quando Kumail conhece e logo se apaixona pela americana Emily (Zoe Kazan).

No começo estava tudo perfeito, caminhando na mais alta normalidade romance de sessão da tarde, até dando guiadas que parecem com Casamento Grego (2002) e você acha que o clichê enfim se instaurará até que uma reviravolta acontece no filme, como o próprio nome condiz (e as sinopses também), a personagem principal, Emily fica doente. Com a doença, a história que estava até então em segundo plano começa a ser figurar sendo principal. 




As diferenças culturais entre o ocidente e o oriente figuram no polo principal, não em uma visão apenas de relacionamento mas de compreender a vida de um modo geral. Existe uma concepção de família totalmente diferente em que Nanjiani mesmo não se enquadrando na sua, não consegue se afastar enquanto Emily vive longe dos país e mantém uma relação mais individual. Quando a mesma fica internada e Kumail precisa conviver com os seus, nasce uma relação sútil e natural, com diálogos rotineiros e cotidianos - que deixam o filme mais cru e realista, mas ao mesmo tempo que demonstram toda a diferença das ligações afetuosas. Utilizando recursos de humor para não dá o peso necessário as cenas e dá ao filme toda a carga dramática que ele teria em uma história da vida real, no passar das cenas, você percebe que ele é mais um retrato da vida de um imigrante muçulmano nos Estados Unidos no qual são comparados regularmente com terroristas. 

No fim, cheguei a conclusão de que Big Sick não tem a pretensão de ter uma grande importância, revolucionar o cinema, fazer algo marcante e grandioso. A intenção deve era retratar o dia à dia de um imigrante de uma forma natural, desenvolvendo os personagens através do diálogo, como acontece, todos os dias. Encontrando pessoas que o comparam ao ISIS, outras que o veem como um sobrevivente, outras que o veem como um ser humano, se embaralhando em piadas locais no qual o mesmo não faz o menor sentindo do que se tratam. Ele não é uma história de romance, ele é a humanização de alguém que deixou seu país e está a procura da sua identidade, da sua cultura, tentando se encaixar enquanto ainda vive sobre dois mundos. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Relatos Selvagens




Uma escolha levada a um extremo condena um indivíduo a ser exposto a todos os tipos de perigos. Essa afirmação até parece óbvia mas quando Sigmund Freud escreve sobre o mal-estar na civilização, no século que passou, coube a nós avaliar as bases fundadores desses extremos. Para ele, todos os fatores operam a fim de dirigir e delimitar nossas escolhas. Mais fundamental ainda é quanta força utilizaremos, ou temos à nossa disposição, para modificar o mundo, a fim de adaptar o mesmo a nossos desejos. Tudo não passa de uma ilusão de que vamos adaptar o mundo a nós mesmos, da maneira que achamos ser mais satisfatória para o nosso ego.

O ponto central de Relatos Selvagens, filme de 2014 dirigido por Damián Szifron, gira em torno de uma órbita comum: os extremos aos quais somos levados, expostos e por quais motivos neles tocamos. Em geral, qualquer extremo se aproxima de um elemento fantástico, sobrenatural, em que um relato incrível (no sentido de não crível) se torna verossímil pelo fluir da narrativa e pelos elementos cotidianos que o envolvem. Por exemplo, se em Kafka, Gregor Samsa acorda transformado em um enorme inseto, o fantástico se apresenta logo de cara, na primeira linha do relato, e, já ao fim do primeiro ou segundo parágrafo, selamos um pacto inconsciente com o narrador e acreditamos no que estamos lendo e nos identificamos. Porque as reações de asco, impotência e surpresa da personagem são as mesmas que teríamos, exatamente as mesmas. Assim como o quarto de Samsa se parece com o nosso quarto, a mesma cama, o mesmo batente, o mesmo barulho que vem lá de baixo, da sala de estar onde tocam violino. É dentro do fantástico que se desenham todas as seis histórias de Relatos Selvagens.

Os limites apresentados pela ficção no cinema, via de regra, transportam o espectador para uma posição confortável fora da realidade daquele cenário apresentado. Se um avião está caindo, estamos fora dele, observando de maneira segura o acidente. No filme de Szifron, a primeira narrativa, a mais curta dentre todas e que pode servir de uma espécie de “prefácio”, envolve justamente um acidente de avião. Pasternak assume o comando de um jato com algumas dezenas de pessoas a bordo, todas que não se conhecem entre si, mas conhecem justamente o “piloto”. Ele os colocou todos ali. Pasternak tem com todos uma possibilidade de vingança, de revanchismo, contra anos de humilhação, seja pelo professor que o reprovou na audição de música clássica, ou pela ex-namorada, com quem não mantém boas relações. Ninguém ali no voo aprecia especialmente a figura de Pasternak. Estamos de fora, acompanhando essa narrativa pra lá de improvável (alguém conseguir reunir tanto desafeto em um mesmo voo, toda a logística que isso envolve, e ainda tirar o piloto do comando e assumir a aeronave). Imediatamente aplaudimos Pasternak, queremos ser Pasternak. Mandar todos os desafetos para o inferno.

A piada psicanalítica aqui reside em dois momentos: um, a personagem que aponta o bico do avião para a casa dos pais enquanto seu terapeuta berra do outro lado da porta que, no fundo, ele é vítima daquela situação, que a culpa é dos pais, em um reducionismo desesperado das proposições freudianas. Dois, Pasternak é um kamikaze, como os pilotos japoneses que na Segunda Guerra, ou os terroristas do 11 de Setembro: vinga-se e é vingado. São as palavras do terapeuta as que mais ressoam: no fundo, seremos sempre a vítima de qualquer ato de violência. Pela via cômica, do esdrúxulo, o diretor nos apresenta a mortandade, a destruição – e, via oposta, o sacrifício, ou seja, a mediação social necessária para que a ela sobrevivamos, em um ciclo contínuo de criação e destruição.

O riso, em Relatos Selvagens, passa pelo autoexame inconsciente de que a catástofre está sempre a um passo de onde estamos. E pela percepção, nada confortante, que, fôssemos nós ali, não riríamos, nos desesperaríamos. Desespero e riso estão comumente ligados em situações de extremo; o riso costuma vir como uma tentativa de alívio para algo que fugiu de nosso controle. Já ri em situações de funeral, já ri diante da morte. Não o riso de alguém distante que observa ali do alto e sequer conhece o morto ou a família do morto, mas de alguém próximo demais, ligado demais àquela pessoa da qual nos despedimos, quase como um soluço, algo que salta afora a fim de trazer algo novo, ainda que repentino, ao que já foi destruído (ou destruímos).

Uma imagem que tive por boa parte do filme, em especial a partir da metade, quando comecei a justapor alguns dos elementos com um frágil fio condutor é a de Shiva, que, na tradição hindu, ora representa a criação ora representa a destruição, no sentido de que destrói-se para gerar algo. Na catarse acachapante da última história, a do casamento, descobre-se ali no casal um amor que beira os limites da insanidade em um misto de músicas judaicas, como “Havenu Shalom Alechem”, tocadas por um DJ cafona, traições, pequenas corrupções, pequenos jogos de poder, que inclusive se estabelecem entre os convidados e a criadagem do bufê, sempre pronta para limpar a sujeira feita pelos primeiros — motivo este, aliás, que perpassa em maior ou menor medida todas as narrativas do filme.

Se nossos instintos mais primais são liberados, deparamo-nos com uma espécie de hostilidade frente ao elemento civilizado e completa entrega ao selvagem, valendo-me do título do filme. Como animais, que aliás são exibidos no início do filme, quando da lista do elenco (Ricardo Darín é um gavião).

No fundo, todas as histórias de Relatos Selvagens espelham uma longa insatisfação com o estado de civilização, tal qual o conhecemos. É o especialista em explosivos, pai de família, que explode em um surto contra a burocratização ao seu redor; o motorista que impede a nossa ultrapassagem do carro à frente (em um relato claramente influenciado por Encurralado, de Steven Spielberg, de 1971).

Para Freud, aliás, é no contato que os primeiros europeus tiveram com o Oriente, em suas viagens e relatos de descobrimento, que é deflagrada essa crise de contrastes — a partir de uma leitura equivocada desses europeus, supostamente mais “civilizados”. O avanço ocidental, na ciência e nas navegações, não havia curado ainda o grande buraco da humanidade: a felicidade.

Se estão ou são felizes os protagonistas dessas histórias tão absurdas e ao mesmo tempo tão reais, não nos resta a dúvida da resposta. Mas estão procurando, pelo seu limite mais extremo.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Abra sua mente, blockbuster também é gente



Nos dias de hoje podemos atestar nossa inteligencia nas redes sociais com postagens sobre filmes, músicas, livros. Postamos e automaticamente temos aquela sensação interna de ter elevado o nosso QI para níveis maiores ou pelo o menos demonstrar isso. Afinal, poucas pessoas postam a música nas redes sociais quando escutam Araketu ou Só Pra Contrariar mas é só o spotify chegar em Pink Floyd que parece que a mãozinha do compartilhar chega a tremer. Isso não é exclusividade de ninguém e não precisa ter vergonha de admitir isso, mas a verdade é que desde a queda do finado Orkut (rip) que chegamos na página da Brasileirissímo e passamos a querer demonstrar todo o nosso bom gosto ouvindo MPB ou aquele rock indiezinho pra mandar aquela indireta. Se antes os status do MSN ficava com Chorão e o CJBR, ele foi substítuido pelo o status no face de arctic monkeys. Não é errado querer demonstrar o bom gosto ou passar a gostar de certas coisas porque aparentemente são mais bem aceita no círculo social que esteja inserido ou se quer se inserir. Mas, existe um limite, uma linha tênue, em que isso pode se tornar elitista e excludente. 

Digo isso, porque estava refletindo esses dias sobre uma postagem no facebook. Participo de um grupo sobre a sétima arte e no boom sobre o filme da Mulher Maravilha, um moderador postou "É proibido falar sobre o filme da Mulher Maravilha e blockbuster no geral", nas justificas dele, não eram filmes que enriqueciam, traziam algo consigo, ou seja, não era um filme "bom".

Mas o que são filmes bons?

Você pode ter respondido que filmes bons são aqueles que trazem uma lição com ele, que trazem um aprendizado ou até mesmo uma reflexão. Mas, o cinema como arte vai muito além disso. O cinema foi criado, primeiramente, como fonte de entretimento, ninguém pensava muito em arte nos primórdios dos longas, se ia ao cinema para se ter algo a se fazer e principalmente que se divertisse, é claro que isso não era acessível a todos, só a elite, os participantes do american way life do pós guerra podiam ter acesso a ele. Depois, com a disseminação dele no mundo, se viu que ele podia ser usado também com uma arma, já que ele era abrangente e assim como a televisão, tinha o poder sobre a massa, ele podia então ter uma função no mundo. 

Mas a questão é que o cinema em si é independência. A massa conseguiu que ele fosse acessível a todos e não ficasse só na burguesia, além disso, conseguiu que ele fosse instrumento de críticas a própria burguesia. Conseguiu ter um emancipamento, fazendo com que o entretenimento chegasse até eles, que eram máquinas de trabalho. É claro que os grandes patrões lucravam com isso, podiam divulgar e além disso, implantar alguma ideologia, mas  era uma via de mão dupla. Se fosse falar sobre a história do cinema e sua contribuição para a humanidade, daria um artigo, um livro, uma biblioteca, passando pela buscas das mulheres iranianas para ter a oportunidade de assistir qualquer filme e sendo proibidas pelo o regime talibã, até a pornochanchada e o sexo explícito no Brasil em plena a ditadura, dando uma certa liberdade as mulheres.

A questão é que ninguém é melhor do que ninguém por assistir filmes cults, clássicos ou do Godard. O cinema é uma arte abrangente e não excludente, não são todas as pessoas que tem acesso a esses filmes e além disso, que tem educação ao ponto de entender. Fazendo isso, estamos criando uma ditadura de que a inteligencia só pode ser aliada a filmes que são considerados cults só por alguns elementos diferenciados. A realidade é bem diferente. Ao colocar Cidade de Deus em uma periferia, as pessoas irão automaticamente identificar a sua realidade, ao colocar Blow Up e seus problemas da burguesia, white girl problems, que tem tudo mas estão em crise existencial assim como os filmes do Bergman, por exemplo, não existirá nenhuma identificação. Precisamos enxergar outras realidades e ver que o cinema é uma arte que tem como fonte o enterimento e também a reflexão mas ela não pode se dá só de um jeito, não existe forma para arte, não é uma receita de bolo.

Cultura não é só o que você gosta. Arte não é só o que você entende por ela. Delimitar é ser excludente e acima de tudo, pensar em si e na sua própria bolha. Você pode ouvir Gaiola das Popuzados e endeusar mulher maravilhosa sem atrapalhar seus estudos sobre física quântica ou fisiologia humana. A questão é, hoje em dia, queremos ser inteligente ou queremos parecer inteligente para ter uma auto estima elevada em algum campo da nossa vida?


O Filme Da Minha Vida e o cinema independente nacional


Criou-se um folclore sobre o cinema nacional surgindo na época da pornochanchada - em que o cinema brasileiro era voltado a comédia e simultaneamente chegavam de hollywood as grandes produções munidas de tecnlogia como 007 - desde então é comum de se ouvir "cinema nacional não presta". Naquela época, o cinema nacional não tinha recursos para prestar, não existia investimento. Quase setenta anos depois, as coisas não mudaram muito por aqui, hoje existe investimento, só que ele é direcionado ao que será supostamente mais rentável e ficam nas mãos apenas de grandes produtoras, que detém a publicidade e a mídia do país, não existindo lugar para o cinema independente.

Se tem uma coisa que me deixa inconformada, é o quando as produções nacionais não são valorizadas aqui mas ganham grandes destaques nos festivais nacionais (um exemplo disso é Como Os Nossos Pais que foi aclamado no Festival Internacional de Cinema de Berlim e esquecido pela mídia brasileira), o mesmo vem acontecendo com O Filme da Minha Vida. O Filme Da Minha Vida é dirigido pelo o Selton Mello e estreou nos cinemas brasileiros com salas vazias, toda a publicidade do filme foi feita pelas redes sociais dos próprios atores com pouco incentivo. Não se ouviu falar sobre eles nos grandes sites de notícias ou de entretenimento.

O filme é uma obra de arte visual, sua fotografia parece milimetricamente pensada assim como sua colorimetria. Alternando entre os sonhos e a realidade, os frames conseguem capturar as sensações que se passam sobre os personagens, indo de um amarelo quente ao vermelho suave, todos os em tons de lembranças, chegando ao marrom e ao preto, aumentando a melancolia e a insegurança do personagem principal em uma cidade fria, pequena e isolada, onde ele é professor, situada na serra gaúcha. É como abrir uma caixa de fotografias antigas e tentar colorir as mesmas, destacando as emoções dos retratados. A trilha sonora é um capítulo à parte, não se fez tão simetricamente excelente como a fotografia mas conseguem fazer com que as imagens se destaquem e as sensações se potencialize, principalmente nas situações de ansiedade, trsiteza e saudades. O filme fala muito das emoções em si, nos sentimentos são baseados o roteiro e fazem despertar os personagens que tem suas histórias entrelaçadas.


Ele é tomado por reverência ao passado, desde a sua ambientação, até os figurinos típicos dos anos 1960, seja pela lembrança constante de uma felicidade que já não existe mais. Vem com ele os extremos oposto das personalidades dos personagens principais: a melancolia de um e a frieza rude de outro, que se uma alguma forma, se atraem. Adaptado do livro Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármeta (que inclusive, faz uma pequena participação no filme), o roteiro busca explorar os sentimentos de busca do protagonista através de abandono do pai quando criança e quando adulto e dos conflitos de um jovem, descobrindo o sexo, a amizade, a paixão. O filme apresenta em si deficiências no roteiro, há uma necessidade de dá um fim as histórias dos personagens secundários do filme e acaba levando ele pra desfechos desnecessários e até mesmo superficiais, mas o longa se mostra sensível em tons visuais e poético em si.

Como um filme bonito e com um roteiro adaptado munido de algumas deficiências, discutir se o filme é bom ou ruim não é o ponto principal aqui, mas expor o descaso do público brasileiro com suas produções atuais, seja por não querer ver pelo o mito que se criou em torno do cinema nacional ou seja por falta de conhecimento da existência. Não existiu a curiosidade de conhecer o filme, no seu fracasso de exibição, não existiu o despertar de ver uma produção nacional em que não exista um humor pronto do Porchat com cenas desconexas, não existiu a procurar por algo que vai muito além do que a maioria dos filmes financiados pela Globo Filmes oferece. Vai muito além do "ruim" ou "bom", "maravilhoso" ou "péssimo", a moral principal da história é que o cinema nacional precisa ser divulgado para aguçado. Dependemos da divulgação de uma grande produtora, detentora do principal veículo midíatico do país, que escolhe as produções e escolhe como divulga-lás.

Que o Filme Da Minha Vida seja visto, divulgado e compartilhado, maravilhoso ou péssimo - na concepção particular de cada um, é uma obra independente nossa e mostra que o cinema nacional pode respirar livre das amarras das grandes produtoras que enfiam qualquer tipo de filme em nossos cinemas. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

A astrologia como ela realmente é


Foi escrito em sânscrito certa vez que iria existir um ano da astrologia aonde ela iria se espalhar “pelo os sete mares”, mas não se sabia quando ou como. Pelo o menos desse lado do atlântico, acredito que ano passado foi exatamente quando a profecia indiana se tornou real. A astrologia explodiu em todas as redes sociais, os mapas astrais nunca foram tão consultados antes, as casas continuaram na espreita, mas a lua e o ascendente foram disseminados por toda internet. Era praticamente o ponto de partida para a astrologia ser reconhecida como ciência, parecia que finalmente ela ia se mostrar como realmente é, uma derivação da astronomia, estudada muito antes do que qualquer outra ciência dos corpos celestes como a física; mas não foi dessa vez. Popularizada no seu teor mais superficial, uma resta de “João Bidu” e seus horóscopos de revistas para vender mais. Ela veio a tona no seu sentido mais óbvio. Taurinos todos preguiçosos e viciados em comer, e os geminianos, então? Fofoqueiros e falsos,  assim sucessivamente, com clichês baseados nos signos dentro dos planetas.

Diante disso tudo, também vieram os livros. Cheguei na casa da minha amiga certo dia e ela me mostrou o livro que comprou por ter começado a se interessar pela astrologia, quando abri o livro - de lançamento saído do forno, parecia uma receita de bolo, exatamente pré definindo as coisas. Coisas como “Vênus em gêmeos tem preferencia pela conversa e não gosta muito de sexo”, explicando casas e planetas diferentes sem co relacionar. Pra piorar todo o falso conhecimento disseminado em face de uma popularização exacerbada, as pessoas começaram a pegar o mapa astral uma das outras sem o mínimo teor de que aquilo era algo altamente intimo, relacionado com o seu ser. Entrar no facebook e pegar os dados para a montagem de um mapa, mesmo que incompleto, virou algo natural. A astrologia como para a compreensão de si mesmo foi esquecida mas foi posta ao interesse do outro.


A astrologia precisa ser encarada e vista como ela é de verdade, precisa ter seus fundamentos científicos disseminados e mais do que isso, vista como um instrumento para o auto conhecimento, para a ligação do ser humano com a natureza, ela vem nos mostrar que estamos conectados e interligados, não existimos isoladamente, o individualismo do ser humano exclui todo o contato com o natural. Estamos entrelaçados com a natureza e a energia que emana dela, a astrologia vem nos lembrar disso. E não, nem todo geminiano é fofoqueiro e nem todo taurino é preguiçoso, esses tabus foram criados na suspensão dos antigos para dá sustância em uma base que precisa ser estudada assim como qualquer outra ciência. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Julieta, Almodovár e a dor


Uma corrente da antropologia humana se pergunta qual é a moral da dor. A ideia ocidental sobre a dor é que a dor nada mais é do que uma provação divina, algo que vem do sobrenatural com um proposito, o ser humano é quase isento da sua culpa, afinal, ela vem dos céus. Já a perspectiva oriental muda o paralelo da dor, a dor é vista como uma justiça transcendental que vem de vidas passadas, o ser humano aqui se aparece como minimamente responsável por ela, por algo que ele fez em outras vidas. As modalidades interpretativas da dor absorvem o ser humano da dor, elas são provações que que se precisa passar para chegar em um resultado repleto de valores. Julieta é um longa metragem que vem se isentar da moral da dor. É sobre isso que Pedro Almodóvar procura se expressar no seu novo filme,  uma adaptação do romance homônimo da escritora Alice Munro, adaptado para a Espanha dos anos 80’s como é típico do Almodóvar, narrando a história da protagonista (Emma Suárez/Adriana Ugarte) que precisa lidar com o desaparecimento espontâneo da filha Antía (Blanca Parés) que ao despedir-se da mãe para ir ao um retiro espiritual, resolve desaparecer e simultaneamente com a morte recente do marido, Xoan.

O filme procura buscar a origem do problema, onde começa a dor, a linha tênue entre ela e seus resultados. Ser mulher, amar, parir, ser mãe e fracassar nesse que é um dos papéis mais associados ao feminino. Julieta é o que há de falho em nós. É um respiro. A dor sempre irá fazer com que o ser humano se questione e crie percepções novas do ambiente que está inserido, mas a dor é idealizada, como se todos necessitassem dela para um tipo de evolução interior, uma transcendência do ser. Almodóvar trás a dor como uma anti heroína, sem nenhuma romantização clichê de superação mas sim para a linha tênue entre o encontro de dores. O indivíduo que sofre encontra-se com a dor do outro, cria a empatia e se torna tão ser humano quanto o outro. A dor é um encontro de almas, como um sentimento superior que desperta outros, é  a partir da morte do marido que Julieta inicia o percurso que oscila entre a melancolia, a tristeza, exceto de amor e a fúria, e culmina na “dor total”, a toma de todos os sentimentos em um superior que parece saltar pra fora do seu corpo e chegar ao limite físico. O ser humano então precisa da dor, não para uma superação divina, mas para sentir.