terça-feira, 2 de outubro de 2018

diário de bordo #1 meca brennand













aconteceram algumas coisas mas nossos corpos estavam lá. a mente quase explodiu em um certo momento mas junto a isso ocorreu uma entrega muito forte do que somos e da onde estamos... acho que de uma certa forma, o tempo parou.

eu ainda conheço tão pouco os jovens e o mundo. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Sofia Coppola, diretora de um filme só


A Sofia Coppola é mulher que teve uma vivência bem diferente do convencional, filha do Francis Ford Coppola, aclamado diretor famoso por sua trilogia The Godfather (1972) e Eleanor Coppola, roteirista e cineasta conhecida pelo documentário Hearts of Darkness: A Filmmaker's Apocalypse (1991), ela passou sua infância divida em sets de filmagens e viajar pelo o mundo. Ao crescer, fez faculdade de pintura, fotografia e moda, largando todas posteriormente por não se achar boa o suficiente nelas, até se encontrar como diretora, produtora, roteirista e atriz, tendo ganhado o oscar na categoria de Melhor Roteiro Original, por Lost in Translation (2003).

Em todas as entrevistas Sofia deixa bem claro que existe muito de si em todas as suas obras. É perceptível que a diretora e roteirista sempre coloca muito de sua personalidade nos personagens principalmente quando reflete sobre o vazio existencial, o mundo do poder, fama e dinheir mas é nesse ponto, de colocar toda a sua vivência dentro de seus filmes, que ela falha. Em todas suas histórias existe uma falta: a falta de diversidade. 



Ao assistir seus longas existe um elemento que sempre estará lá, pessoas ricas vivendo problemas que não estão ligados a nenhuma dificuldade política ou econômica. A narrativa sempre se passa com pessoas de classe média alta que - tal como Sofia foi a vida inteira -, possuem problemas mais superficiais. Em Marie Antoinette (2006), seu filme de maior valor financeiro, isso fica bem visível, Sofia parece até mesmo ofuscar a revolução política da época e todo o contexto social economico e se foca na ingenuidade e descoberta da sua própria juventude. Marie procura criar um mundo de fantasias no palácio de Versalles para se negar a ver que a revolução está prestes a explodir e isso de uma certa forma, se assemelha com os trabalhos de Sofia, em que ela parece focar sempre em temas como a solidão, o vazio existencial de pessoas que tem tudo, a descoberta da sexualidade, a perda da inocência, fechando os olhos para uma camada social que a mesma nunca viveu. Em The Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013), ela consegue fazer mais do mesmo entrando no mundo dos cidadões previlégiados com problemas emocionais e psicológicos em que Coppola, novamente,  se abstém de grandes julgamentos acerca de seus comportamentos, naturalizando seus comportamentos fúteis justificando com o vazio existencial que o dinheiro proporciona. Ela parece ficar totalmente confortável na história por ter crescido no mundo sustentado por grandes artistas e moda da sociedade americana.

Além do contexto socioeconômico, em suas obras ocorre a falta de representatividade negra em todas as suas películas que apresenta a total ausência de atores negros. Em 2017 foi acusada de "whitewhashing" com o longa "O Estranho que Nós Amamos". O filme que já tinha sido filmado em 1971, continua uma escrava negra que era uma das oito personagens do filme. No filme original, a escrava, Hallie (Mae Mercer) também é seduzida pelo o estranho cabo John McBurney, abrigado na casa das mulheres. No longa de Sofia, a mesma incorporou parte dessas ações em outras duas personagens. A diretora respondeu que não queria abordar "esse assunto" de uma forma tão branda. A percepção de quem vê, ela não pretende abordar esse assunto de forma alguma já que em todos os seus filmes, feitos em diferentes épocas, diferentes países, diferentes culturas, a mesma parece apagar personagens negros dando a entender que não existem pessoas negras no mundo criado por Sofia baseado no mundo que ela mesmo vive. 

Sofia faz um retrato da sociedade baseada no mundo que ela cresceu e ainda vive sem sair da sua zona de conforto e parecendo ser sempre a diretora de um filme só. 

quarta-feira, 13 de junho de 2018

I've got new rules

Resultado de imagem para alabama monroe tumblr

Como boa neurótica que sou, tenho uma regra cinematográfica que levo muito a sério que é não me apaixonar um filme sem um intervalo de um mês. Eu preciso desse tempo para me recompor, falar exaustivamente para os meus amigos, postar no Instagram, no Facebook e no Twitter, ameaçar desfazer amizades com quem não assistir ou assistir e não amar tanto quanto eu além de refletir se devo favoritar ou não no filmow. Tudo isso leva tempo.

Essa semana vi A Caça, do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg. Um filme profundo e doloroso sobre os danos irreparáveis que a mentira e o julgamento precipitado podem causar. Era como se pudesse sentir a dor da injustiça dentro de mim. Fiquei dias falando sobre ele — até com desconhecidos na rua, eu puxava assunto.

Em seguida, veio Alabama Monroe. Por favor, uma pausa para Alabama. Esse é um filme que não dá para ir falando sem essa pausa. Sem um suspiro. Sem um olhar perdido no horizonte. O longa belga do diretor Felix Van Groeningen é um belíssimo conto de fadas rural de arrancar o coração com as mãos. Aquele tipo de filme em que os personagens saem do cinema com a gente, vão para casa, para o trabalho, para as festas, e se recusam a partir enquanto a gente não aceita e supera tudo que aconteceu com eles. Quando a gente aceita, eles vão.

Eu gosto de filmes que deixam conseqüências. Não gosto de sair do cinema do mesmo jeito que entrei. E nesse quesito, e em todos os outros, esses três citados estão de parabéns.

Alguns filmes são tão lindos que não terminam quando acabam.

Estou apaixonada pelos dois. Quebrei a regra. 

The Big Sick | Resenha



Sabe aqueles dias que você só quer um fast food cinematográfico? Uma comédia romântica, cheia clichês, que te faça acreditar minimamente no amor novamente com aquele final feliz impossível entre duas pessoas que se conheceram há uma semana de uma forma totalmente aleatória mas nunca tiveram um sentimento tão intenso e recíproco na vida, então, eu estava procurando isso quando assisti The Big Sick, pra complementar a receita clichê, amor e tudo que há de bom, ele ainda tinha sido indicado ao oscar de Melhor Roteiro Original para Kumail Nanjiani que além de ser o roteirista, atua no filme. 

A história se passa na vida de Kumail Nanjiani, o qual é um comediante de stand-up, Paquistanês, seus pais saíram do país em direção aos EUA na esperança de fugir da guerra. Apesar de pertencer a uma família extremamente tradicional, ele não concorda com muitos dos costumes da cultura paquistanesa, principalmente dos casamentos arranjados pela própria família, no qual ele mal conhece a noiva. A coisa se complica de vez quando Kumail conhece e logo se apaixona pela americana Emily (Zoe Kazan).

No começo estava tudo perfeito, caminhando na mais alta normalidade romance de sessão da tarde, até dando guiadas que parecem com Casamento Grego (2002) e você acha que o clichê enfim se instaurará até que uma reviravolta acontece no filme, como o próprio nome condiz (e as sinopses também), a personagem principal, Emily fica doente. Com a doença, a história que estava até então em segundo plano começa a ser figurar sendo principal. 




As diferenças culturais entre o ocidente e o oriente figuram no polo principal, não em uma visão apenas de relacionamento mas de compreender a vida de um modo geral. Existe uma concepção de família totalmente diferente em que Nanjiani mesmo não se enquadrando na sua, não consegue se afastar enquanto Emily vive longe dos país e mantém uma relação mais individual. Quando a mesma fica internada e Kumail precisa conviver com os seus, nasce uma relação sútil e natural, com diálogos rotineiros e cotidianos - que deixam o filme mais cru e realista, mas ao mesmo tempo que demonstram toda a diferença das ligações afetuosas. Utilizando recursos de humor para não dá o peso necessário as cenas e dá ao filme toda a carga dramática que ele teria em uma história da vida real, no passar das cenas, você percebe que ele é mais um retrato da vida de um imigrante muçulmano nos Estados Unidos no qual são comparados regularmente com terroristas. 

No fim, cheguei a conclusão de que Big Sick não tem a pretensão de ter uma grande importância, revolucionar o cinema, fazer algo marcante e grandioso. A intenção deve era retratar o dia à dia de um imigrante de uma forma natural, desenvolvendo os personagens através do diálogo, como acontece, todos os dias. Encontrando pessoas que o comparam ao ISIS, outras que o veem como um sobrevivente, outras que o veem como um ser humano, se embaralhando em piadas locais no qual o mesmo não faz o menor sentindo do que se tratam. Ele não é uma história de romance, ele é a humanização de alguém que deixou seu país e está a procura da sua identidade, da sua cultura, tentando se encaixar enquanto ainda vive sobre dois mundos. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Relatos Selvagens




Uma escolha levada a um extremo condena um indivíduo a ser exposto a todos os tipos de perigos. Essa afirmação até parece óbvia mas quando Sigmund Freud escreve sobre o mal-estar na civilização, no século que passou, coube a nós avaliar as bases fundadores desses extremos. Para ele, todos os fatores operam a fim de dirigir e delimitar nossas escolhas. Mais fundamental ainda é quanta força utilizaremos, ou temos à nossa disposição, para modificar o mundo, a fim de adaptar o mesmo a nossos desejos. Tudo não passa de uma ilusão de que vamos adaptar o mundo a nós mesmos, da maneira que achamos ser mais satisfatória para o nosso ego.

O ponto central de Relatos Selvagens, filme de 2014 dirigido por Damián Szifron, gira em torno de uma órbita comum: os extremos aos quais somos levados, expostos e por quais motivos neles tocamos. Em geral, qualquer extremo se aproxima de um elemento fantástico, sobrenatural, em que um relato incrível (no sentido de não crível) se torna verossímil pelo fluir da narrativa e pelos elementos cotidianos que o envolvem. Por exemplo, se em Kafka, Gregor Samsa acorda transformado em um enorme inseto, o fantástico se apresenta logo de cara, na primeira linha do relato, e, já ao fim do primeiro ou segundo parágrafo, selamos um pacto inconsciente com o narrador e acreditamos no que estamos lendo e nos identificamos. Porque as reações de asco, impotência e surpresa da personagem são as mesmas que teríamos, exatamente as mesmas. Assim como o quarto de Samsa se parece com o nosso quarto, a mesma cama, o mesmo batente, o mesmo barulho que vem lá de baixo, da sala de estar onde tocam violino. É dentro do fantástico que se desenham todas as seis histórias de Relatos Selvagens.

Os limites apresentados pela ficção no cinema, via de regra, transportam o espectador para uma posição confortável fora da realidade daquele cenário apresentado. Se um avião está caindo, estamos fora dele, observando de maneira segura o acidente. No filme de Szifron, a primeira narrativa, a mais curta dentre todas e que pode servir de uma espécie de “prefácio”, envolve justamente um acidente de avião. Pasternak assume o comando de um jato com algumas dezenas de pessoas a bordo, todas que não se conhecem entre si, mas conhecem justamente o “piloto”. Ele os colocou todos ali. Pasternak tem com todos uma possibilidade de vingança, de revanchismo, contra anos de humilhação, seja pelo professor que o reprovou na audição de música clássica, ou pela ex-namorada, com quem não mantém boas relações. Ninguém ali no voo aprecia especialmente a figura de Pasternak. Estamos de fora, acompanhando essa narrativa pra lá de improvável (alguém conseguir reunir tanto desafeto em um mesmo voo, toda a logística que isso envolve, e ainda tirar o piloto do comando e assumir a aeronave). Imediatamente aplaudimos Pasternak, queremos ser Pasternak. Mandar todos os desafetos para o inferno.

A piada psicanalítica aqui reside em dois momentos: um, a personagem que aponta o bico do avião para a casa dos pais enquanto seu terapeuta berra do outro lado da porta que, no fundo, ele é vítima daquela situação, que a culpa é dos pais, em um reducionismo desesperado das proposições freudianas. Dois, Pasternak é um kamikaze, como os pilotos japoneses que na Segunda Guerra, ou os terroristas do 11 de Setembro: vinga-se e é vingado. São as palavras do terapeuta as que mais ressoam: no fundo, seremos sempre a vítima de qualquer ato de violência. Pela via cômica, do esdrúxulo, o diretor nos apresenta a mortandade, a destruição – e, via oposta, o sacrifício, ou seja, a mediação social necessária para que a ela sobrevivamos, em um ciclo contínuo de criação e destruição.

O riso, em Relatos Selvagens, passa pelo autoexame inconsciente de que a catástofre está sempre a um passo de onde estamos. E pela percepção, nada confortante, que, fôssemos nós ali, não riríamos, nos desesperaríamos. Desespero e riso estão comumente ligados em situações de extremo; o riso costuma vir como uma tentativa de alívio para algo que fugiu de nosso controle. Já ri em situações de funeral, já ri diante da morte. Não o riso de alguém distante que observa ali do alto e sequer conhece o morto ou a família do morto, mas de alguém próximo demais, ligado demais àquela pessoa da qual nos despedimos, quase como um soluço, algo que salta afora a fim de trazer algo novo, ainda que repentino, ao que já foi destruído (ou destruímos).

Uma imagem que tive por boa parte do filme, em especial a partir da metade, quando comecei a justapor alguns dos elementos com um frágil fio condutor é a de Shiva, que, na tradição hindu, ora representa a criação ora representa a destruição, no sentido de que destrói-se para gerar algo. Na catarse acachapante da última história, a do casamento, descobre-se ali no casal um amor que beira os limites da insanidade em um misto de músicas judaicas, como “Havenu Shalom Alechem”, tocadas por um DJ cafona, traições, pequenas corrupções, pequenos jogos de poder, que inclusive se estabelecem entre os convidados e a criadagem do bufê, sempre pronta para limpar a sujeira feita pelos primeiros — motivo este, aliás, que perpassa em maior ou menor medida todas as narrativas do filme.

Se nossos instintos mais primais são liberados, deparamo-nos com uma espécie de hostilidade frente ao elemento civilizado e completa entrega ao selvagem, valendo-me do título do filme. Como animais, que aliás são exibidos no início do filme, quando da lista do elenco (Ricardo Darín é um gavião).

No fundo, todas as histórias de Relatos Selvagens espelham uma longa insatisfação com o estado de civilização, tal qual o conhecemos. É o especialista em explosivos, pai de família, que explode em um surto contra a burocratização ao seu redor; o motorista que impede a nossa ultrapassagem do carro à frente (em um relato claramente influenciado por Encurralado, de Steven Spielberg, de 1971).

Para Freud, aliás, é no contato que os primeiros europeus tiveram com o Oriente, em suas viagens e relatos de descobrimento, que é deflagrada essa crise de contrastes — a partir de uma leitura equivocada desses europeus, supostamente mais “civilizados”. O avanço ocidental, na ciência e nas navegações, não havia curado ainda o grande buraco da humanidade: a felicidade.

Se estão ou são felizes os protagonistas dessas histórias tão absurdas e ao mesmo tempo tão reais, não nos resta a dúvida da resposta. Mas estão procurando, pelo seu limite mais extremo.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Abra sua mente, blockbuster também é gente



Nos dias de hoje podemos atestar nossa inteligencia nas redes sociais com postagens sobre filmes, músicas, livros. Postamos e automaticamente temos aquela sensação interna de ter elevado o nosso QI para níveis maiores ou pelo o menos demonstrar isso. Afinal, poucas pessoas postam a música nas redes sociais quando escutam Araketu ou Só Pra Contrariar mas é só o spotify chegar em Pink Floyd que parece que a mãozinha do compartilhar chega a tremer. Isso não é exclusividade de ninguém e não precisa ter vergonha de admitir isso, mas a verdade é que desde a queda do finado Orkut (rip) que chegamos na página da Brasileirissímo e passamos a querer demonstrar todo o nosso bom gosto ouvindo MPB ou aquele rock indiezinho pra mandar aquela indireta. Se antes os status do MSN ficava com Chorão e o CJBR, ele foi substítuido pelo o status no face de arctic monkeys. Não é errado querer demonstrar o bom gosto ou passar a gostar de certas coisas porque aparentemente são mais bem aceita no círculo social que esteja inserido ou se quer se inserir. Mas, existe um limite, uma linha tênue, em que isso pode se tornar elitista e excludente. 

Digo isso, porque estava refletindo esses dias sobre uma postagem no facebook. Participo de um grupo sobre a sétima arte e no boom sobre o filme da Mulher Maravilha, um moderador postou "É proibido falar sobre o filme da Mulher Maravilha e blockbuster no geral", nas justificas dele, não eram filmes que enriqueciam, traziam algo consigo, ou seja, não era um filme "bom".

Mas o que são filmes bons?

Você pode ter respondido que filmes bons são aqueles que trazem uma lição com ele, que trazem um aprendizado ou até mesmo uma reflexão. Mas, o cinema como arte vai muito além disso. O cinema foi criado, primeiramente, como fonte de entretimento, ninguém pensava muito em arte nos primórdios dos longas, se ia ao cinema para se ter algo a se fazer e principalmente que se divertisse, é claro que isso não era acessível a todos, só a elite, os participantes do american way life do pós guerra podiam ter acesso a ele. Depois, com a disseminação dele no mundo, se viu que ele podia ser usado também com uma arma, já que ele era abrangente e assim como a televisão, tinha o poder sobre a massa, ele podia então ter uma função no mundo. 

Mas a questão é que o cinema em si é independência. A massa conseguiu que ele fosse acessível a todos e não ficasse só na burguesia, além disso, conseguiu que ele fosse instrumento de críticas a própria burguesia. Conseguiu ter um emancipamento, fazendo com que o entretenimento chegasse até eles, que eram máquinas de trabalho. É claro que os grandes patrões lucravam com isso, podiam divulgar e além disso, implantar alguma ideologia, mas  era uma via de mão dupla. Se fosse falar sobre a história do cinema e sua contribuição para a humanidade, daria um artigo, um livro, uma biblioteca, passando pela buscas das mulheres iranianas para ter a oportunidade de assistir qualquer filme e sendo proibidas pelo o regime talibã, até a pornochanchada e o sexo explícito no Brasil em plena a ditadura, dando uma certa liberdade as mulheres.

A questão é que ninguém é melhor do que ninguém por assistir filmes cults, clássicos ou do Godard. O cinema é uma arte abrangente e não excludente, não são todas as pessoas que tem acesso a esses filmes e além disso, que tem educação ao ponto de entender. Fazendo isso, estamos criando uma ditadura de que a inteligencia só pode ser aliada a filmes que são considerados cults só por alguns elementos diferenciados. A realidade é bem diferente. Ao colocar Cidade de Deus em uma periferia, as pessoas irão automaticamente identificar a sua realidade, ao colocar Blow Up e seus problemas da burguesia, white girl problems, que tem tudo mas estão em crise existencial assim como os filmes do Bergman, por exemplo, não existirá nenhuma identificação. Precisamos enxergar outras realidades e ver que o cinema é uma arte que tem como fonte o enterimento e também a reflexão mas ela não pode se dá só de um jeito, não existe forma para arte, não é uma receita de bolo.

Cultura não é só o que você gosta. Arte não é só o que você entende por ela. Delimitar é ser excludente e acima de tudo, pensar em si e na sua própria bolha. Você pode ouvir Gaiola das Popuzados e endeusar mulher maravilhosa sem atrapalhar seus estudos sobre física quântica ou fisiologia humana. A questão é, hoje em dia, queremos ser inteligente ou queremos parecer inteligente para ter uma auto estima elevada em algum campo da nossa vida?


O Filme Da Minha Vida e o cinema independente nacional


Criou-se um folclore sobre o cinema nacional surgindo na época da pornochanchada - em que o cinema brasileiro era voltado a comédia e simultaneamente chegavam de hollywood as grandes produções munidas de tecnlogia como 007 - desde então é comum de se ouvir "cinema nacional não presta". Naquela época, o cinema nacional não tinha recursos para prestar, não existia investimento. Quase setenta anos depois, as coisas não mudaram muito por aqui, hoje existe investimento, só que ele é direcionado ao que será supostamente mais rentável e ficam nas mãos apenas de grandes produtoras, que detém a publicidade e a mídia do país, não existindo lugar para o cinema independente.

Se tem uma coisa que me deixa inconformada, é o quando as produções nacionais não são valorizadas aqui mas ganham grandes destaques nos festivais nacionais (um exemplo disso é Como Os Nossos Pais que foi aclamado no Festival Internacional de Cinema de Berlim e esquecido pela mídia brasileira), o mesmo vem acontecendo com O Filme da Minha Vida. O Filme Da Minha Vida é dirigido pelo o Selton Mello e estreou nos cinemas brasileiros com salas vazias, toda a publicidade do filme foi feita pelas redes sociais dos próprios atores com pouco incentivo. Não se ouviu falar sobre eles nos grandes sites de notícias ou de entretenimento.

O filme é uma obra de arte visual, sua fotografia parece milimetricamente pensada assim como sua colorimetria. Alternando entre os sonhos e a realidade, os frames conseguem capturar as sensações que se passam sobre os personagens, indo de um amarelo quente ao vermelho suave, todos os em tons de lembranças, chegando ao marrom e ao preto, aumentando a melancolia e a insegurança do personagem principal em uma cidade fria, pequena e isolada, onde ele é professor, situada na serra gaúcha. É como abrir uma caixa de fotografias antigas e tentar colorir as mesmas, destacando as emoções dos retratados. A trilha sonora é um capítulo à parte, não se fez tão simetricamente excelente como a fotografia mas conseguem fazer com que as imagens se destaquem e as sensações se potencialize, principalmente nas situações de ansiedade, trsiteza e saudades. O filme fala muito das emoções em si, nos sentimentos são baseados o roteiro e fazem despertar os personagens que tem suas histórias entrelaçadas.


Ele é tomado por reverência ao passado, desde a sua ambientação, até os figurinos típicos dos anos 1960, seja pela lembrança constante de uma felicidade que já não existe mais. Vem com ele os extremos oposto das personalidades dos personagens principais: a melancolia de um e a frieza rude de outro, que se uma alguma forma, se atraem. Adaptado do livro Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármeta (que inclusive, faz uma pequena participação no filme), o roteiro busca explorar os sentimentos de busca do protagonista através de abandono do pai quando criança e quando adulto e dos conflitos de um jovem, descobrindo o sexo, a amizade, a paixão. O filme apresenta em si deficiências no roteiro, há uma necessidade de dá um fim as histórias dos personagens secundários do filme e acaba levando ele pra desfechos desnecessários e até mesmo superficiais, mas o longa se mostra sensível em tons visuais e poético em si.

Como um filme bonito e com um roteiro adaptado munido de algumas deficiências, discutir se o filme é bom ou ruim não é o ponto principal aqui, mas expor o descaso do público brasileiro com suas produções atuais, seja por não querer ver pelo o mito que se criou em torno do cinema nacional ou seja por falta de conhecimento da existência. Não existiu a curiosidade de conhecer o filme, no seu fracasso de exibição, não existiu o despertar de ver uma produção nacional em que não exista um humor pronto do Porchat com cenas desconexas, não existiu a procurar por algo que vai muito além do que a maioria dos filmes financiados pela Globo Filmes oferece. Vai muito além do "ruim" ou "bom", "maravilhoso" ou "péssimo", a moral principal da história é que o cinema nacional precisa ser divulgado para aguçado. Dependemos da divulgação de uma grande produtora, detentora do principal veículo midíatico do país, que escolhe as produções e escolhe como divulga-lás.

Que o Filme Da Minha Vida seja visto, divulgado e compartilhado, maravilhoso ou péssimo - na concepção particular de cada um, é uma obra independente nossa e mostra que o cinema nacional pode respirar livre das amarras das grandes produtoras que enfiam qualquer tipo de filme em nossos cinemas.